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O adeus a quem, em versos, chamou Araçatuba de ‘cidade maravilhosa’

O ano? 1958. Araçatuba chegava ao seu cinquentenário. Mas, para os amantes do carnaval, a data representava algo especial. Foi quando a festa se tornou oficial no calendário do município, então sob o governo do prefeito Aureliano Valadão Furquim. O que isso significava? A partir de então, o carnaval tinha que ter comemorado todos os anos, independentemente de como fosse. Valia “brincar com ou sem dinheiro”, como cantou a escola de samba carioca Estação Primeira de Mangueira neste ano.

Só que aquele momento histórico na cultura local acabou marcado por uma marchinha capaz de fazer qualquer araçatubense sentir orgulho de onde vive. Dizia a letra da canção: “Salve, salve, salve Araçatuba/ Minha cidade natal/ Cidade maravilhosa…/ Para mim, não há igual/ Salve, salve os seus fundadores/ Os seus habitantes afinal/ Salve, salve, salve Araçatuba/ No seu cinquentenário/ No seu carnaval/ Araçatuba parece uma gotinha de mel/ Esta cidade maravilhosa/ É um pedacinho do céu”. Seu autor era um jovem de apenas 22 anos à época: José Alves.

Negro, de fala mansa e com talento capaz de tirar de pequenas observações do cotidiano elementos para uma boa música, ele debutava na vida artística, ao mesmo tempo em que ajudava a edificar a história do carnaval araçatubense. Antes da “marchinha dos 50”, Zé Alves, como era popularmente chamado, já havia ajudado a organizar a primeira escola de samba da cidade, criada pelo pintor de parede José França, o “Juca”. O nome da agremiação: “Juca e sua escola de samba”, tipo de definição praticamente impensável para os dias atuais.

Um ano após sua obra mais famosa, Zé criou a sua própria escola de samba, a Rosa Branca, ainda hoje lembrada com saudosismo pelos mais antigos, quer pela sua espontaneidade, quer pelas vitórias obtidas na década 1960.

60 ANOS DEPOIS

Sessenta anos após a canção que lhe deu notoriedade na música em Araçatuba, a voz do famoso Zé do samba se calou. Era pouco mais da meia-noite de ontem, quando, nas redes sociais, ainda choviam homenagens a um ícone nacional do samba, Dona Ivone Lara, falecida um dia antes, Zé Alves morria aos 82 anos de idade.

Nos últimos anos, ele sofria de Mal de Alzheimer, lutando, inclusive contra complicações decorrentes da doença. O velório ocorreu na Funerária Cardassi e o sepultamento, no Cemitério Jardim da Luz, no fim da tarde.

LEGADO

Zé se foi, mas deixou boas recordações. Presidente da escola de samba Unidos da Zona Leste, quatro vezes campeã do carnaval araçatubense, Jacques Pétia foi sutil ao falar do legado do antigo poeta. “Seu maior legado foram os filhos”, disse. Sim, na família de Zé, o samba, realmente, fez escola.

Orfeu, um dos filhos, tocou cuíca na agremiação da Zona Leste. Malcom Alves foi autor, na década passada, de sambas-enredos para Os Caprichosos, escola que, recentemente, perdeu seu fundador e presidente, Oswaldo Rodrigues de Souza, o Coro. Malcom é ainda um dos compositores de “Humilde Residência”, que ficou famosa na voz do cantor Michel Teló. “O Zé muito representou para o nosso carnaval”, completou Jacques.

Arnon Gomes – Araçatuba

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