Araçatuba

Araçatubense se prepara para contar a história dos 110 anos da imigração para os japoneses

São 15 minutos de diálogo. De um lado, a avó, ou “batchan”, para os japoneses e seus ascendentes; do outro, a neta, que ouve atentamente cada história contada. A cena se passa em uma bicicleta toda estilizada, uma imagem que, para os povos da “terra do sol nascente”, representa muito. Relembra os gaitos kamishibaia (contadores de kamishibai) que, no passado, andavam por bairros de cidades japonesas em suas “magrelas”. Nesses veículos, carregavam uma caixa repleta de doces que eram vendidos às crianças que ouviam seus contos.

E é assim, no tradicional veículo de duas rodas, decorado do jeito que os antigos gaitos faziam, que a contadora de histórias e artista plástica Flávia Wolffowitz, de Araçatuba, interpretará a senhora e a menina. O tema? A imigração japonesa, capítulo da história do Brasil que completa 110 anos em 2018. A apresentação para a qual vem se preparando tem elemento ainda mais motivador. Ocorrerá em um lugar sempre sonhado por ela: o próprio Japão.

Pesquisadora de kamishibai, ou “teatro de papel”, há pelo menos 18 anos, ela participará do concurso internacional dessa arte que, neste ano, chega à sua sétima edição. O evento está marcado para 8 de julho na cidade de Numazu. Para estar presente no concurso, a artista araçatubense expressou seu interesse após convocação feita em edital e apresentou seu projeto. Além de pesquisadora, Flávia é também membro da Ikaja (Associação Internacional de Kamishibai de Tóquio). Do Brasil, ela será a única representante no espetáculo.

IMAGENS
Flávia adaptou sua história com a dos gaitos do passado. Na caixa de madeira acoplada à sua bicicleta, por exemplo, ela não carrega doces. Traz 16 imagens, todas pintadas por ela, que remetem à luta dos japoneses para se adaptarem e conquistarem seus espaços em território sul-americano. A conversa da avó com a neta tem início com a abolição da escravatura e o começo da Era Meiji (do imperador de mesmo nome) no Japão, episódios da segunda metade do século 19. Retrata um período de dificuldades na vida dos japoneses e que, por outro lado, deixava clara a necessidade de mão de obra capacitada para a lavoura no Brasil devido ao término da escravidão. Uma das primeiras ilustrações, aliás, revela cartazes da época, indicando o Noroeste Paulista como destino dos decasséguis. Pelo acordo entre Brasil e Japão, cada província brasileira deveria ter uma colônia japonesa.

As imagens prosseguem com o Kasatu Maru, o navio japonês que trouxe o contingente do outro lado do planeta para trabalhar por aqui, inicialmente na colheita de café. Foram 51 dias cruzando mares até chegar ao Porto de Santos. Valendo-se das figuras, a avó conta para a neta o trabalho das crianças na lavoura, carregando sacas. Mostra ainda a humilde estrutura das casas em que habitavam no meio rural e a dificuldade gerada pela falta de escolas para os filhos. Passa também pelos sofrimentos provocados pela Segunda Guerra Mundial.

O texto de Flávia não deixa de fazer uma evocação ao passado, algo recorrente entre os japoneses. Não é à toa que, no começo da história, a neta questiona à batchan o motivo de escutar uma música tão antiga. Por fim, a obra não esquece um capítulo mais recente da história dos japoneses no Brasil, marcado pelo caminho inverso, ou seja, o retorno ao oriente por causa da falta de oportunidades no território para o qual embarcaram há mais de um século.

CURIOSIDADE
Toda a essa saga vai ser contada de maneira, no mínimo, curiosa. Os 18 contadores apresentarão suas histórias simultaneamente nas ruas de Namazu. Serão duas exibições em um dia, com transmissão pela TV.

Quando perguntada sobre como é contar a história que os japoneses viveram no Brasil para o próprio Japão, Flávia se diz realizada e fala com emoção. “Vou levar uma história que eles nunca viveram. É uma história de muita luta, muito sofrimento”, conta. “Mas é uma história que muito contribuiu para o Brasil, especialmente nos campos do trabalho e do estudo. Posso dizer que, se os japoneses não tivessem vindo para o cá, o Brasil não seria o que é”, completa a artista, que já apresentou esse espetáculo em Araçatuba. Primeiro, na Associação Cultural Nipo Brasileira e, depois, na escola estadual que leva o nome de seu avô, Clóvis de Arruda Campos – advogado e inspetor federal de educação entre Bauru e Três Lagoas.

Contadora de histórias desde 1995, quando concluiu curso de especialização de Arte e Educação na USP (Universidade de São Paulo), ela faz questão de destacar o apoio recebido da família, de amigos, da Igreja Tenrikyo Paineira de Araçatuba e do Centro de Difusão da Língua Japonesa de Araçatuba.

Arnon Gomes

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