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Oito médicos cubanos vão continuar em Araçatuba após encerramento de parceria

ARNON GOMES – ARAÇATUBA

Kamila (nome fictício), médica cubana, trabalhava há até uma semana em uma das mais movimentadas UBSs (Unidades Básicas de Saúde) de Araçatuba. A demanda é tão intensa no “postinho” que, dos oito profissionais de medicina, cinco eram do país caribenho. Destes, Kamila é a única que não voltou para o outro lado das Américas após a última quarta-feira, dia em que, definitivamente, encerrou parceria do Brasil com Cuba no Mais Médicos – a “ilha” não concordou com proposta de revisão do programa anunciada pelo presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL).

Um motivo muito especial levou a médica a decidir ficar no país onde veio trabalhar há quatro anos e meio. Ela se casou e, posteriormente, engravidou. Esta é, aliás, foi uma das razões para ter ficado no Brasil todo esse tempo. Seu contrato, inicialmente, era de três anos. Com 30 semanas de gestação, ela ainda tem esperança de voltar a trabalhar em Araçatuba. A expectativa é conseguir o quanto antes a aprovação no Revalida, como é chamado o exame nacional que reconhece diplomas estrangeiros de medicina.

EM COMUM

Kamila faz parte de um grupo de oito médicos cubanos, todos egressos do programa federal, que vão continuar em Araçatuba, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. Eles têm uma razão em comum para tal: constituíram família na cidade a partir de 2014, ano da criação do programa federal e quando aqui chegaram.

Para poderem exercer seus ofícios de forma particular ou na rede pública, terão de fazer a mesma prova que Kamila aguarda. Outra expectativa é pelo segundo edital do Mais Médicos, que pode ser lançado na próxima terça-feira para estrangeiros e brasileiros formados no exterior, caso haja vagas remanescentes.

Com a saída dos cubanos, o governo federal abriu, no último dia 21, inscrições para 8.517 vagas em quase três mil municípios e 34 distritos indígenas. O salário é de R$ 11,8 mil. Para este edital, direcionado a brasileiros ou profissionais com diploma revalidado no País, as inscrições terminam hoje.

EMOÇÃO

Em Araçatuba, trabalhavam 23 médicos cubanos. Era o maior contingente de profissionais de Cuba que atuava na região. O encerramento das atividades deles na cidade foi marcado por muita emoção. Na quarta-feira passada, eles receberam homenagem foram homenageados do Comus (Conselho Municipal de Saúde) e da Secretaria de Saúde durante evento na Câmara Municipal. A homenagem foi conduzida pela diretora de Atenção Básica no município, Aparecida Nava. Na oportunidade, ganharam certificados de agradecimento e jalecos com o brasão da Prefeitura. As formas humana e preventiva com as quais trabalham eram os principais elogios recebidos da população, o que, aliás, foi reconhecido pelo prefeito Dilador Borges (PSDB).

Em discurso, ele disse: “Despedidas são sempre ruins, ainda mais quando são inesperadas. Ouvimos muitos elogios a respeito da conduta de vocês nas unidades básicas de saúde. Agradecemos e admiramos a coragem que vocês têm em deixar suas famílias para cuidar das famílias brasileiras”.

Desde 2013, 1,4 mil médicos cubanos se casaram no Brasil

Kamila ainda faz parte de uma estatística curiosa em relação aos 8,3 mil cubanos que vieram para o Brasil trabalhar no Mais Médicos. Cerca de 1,4 mil deles são casados com brasileiros, conforme a Opas (Organização Pan-Americana da Saúde). Segundo a entidade, a primeira versão do acordo previa que todos os médicos que haviam cumprido três anos de missão deveriam voltar a Cuba. Entretanto, mudança nas regras feita em 2016 passou a permitir que os médicos que constituíram família com brasileiros não precisariam se submeter ao prazo inicial.

Uma das principais críticas de Bolsonaro ao programa, criado ainda durante o governo Dilma Rousseff (PT), diz respeito à previsão de repasse direto ao governo cubano de 70% dos salários dos médicos. Em entrevista, o presidente eleito comparou a situação de vida de muitos médicos cubanos à de escravidão. “Queremos o salário integral e o direito de trazer a família para cá. Isso é pedir muito? Isso está em nossas leis, que estão sendo desrespeitadas”, disse, na ocasião.

Os primeiros dias sem os cubanos mostraram que a lacuna deixada por eles precisa ser preenchida o quanto antes. Filas, longas horas de espera por atendimento e reagendamento de consultas foram algumas das situações registradas. No caso de Araçatuba, a atenção básica tem ainda 33 médicos contratados por organização social que presta serviço na saúde, o que já não acontece em muitos municípios, principalmente de pequeno porte.

Luta para continuar em atividade vem antes do fim do programa

Como Kamila, os médicos cubanos que trabalhavam na atenção básica à saúde têm evitado dar entrevistas. Por isso, a reportagem está trabalhando com nomes fictícios dos profissionais com as quais conseguiu falar.

O LIBERAL REGIONAL apurou que, em alguns casos, a luta dos médicos caribenhos para continuar em atividade no Brasil já vem antes mesmo do fim da parceria com Cuba. Este é o caso de Pierre. Ele trabalhava na mesma unidade em que Kamila atuava. Fez parte da primeira turma de cubanos que chegou a Araçatuba, em 2014, um ano após a criação do Mais Médicos. Quando terminou seu contrato com o programa voltado a combater a falta de médicos em regiões interioranas do Brasil, em 2016, ele retornou para Cuba. No entanto, por conta própria, neste ano, voltou para Araçatuba. Hoje, estuda e trabalha em uma padaria, enquanto não são abertas as inscrições para a prova do Revalida. A escolha por Araçatuba é simples. Ele não quer voltar para Cuba e quer ficar no Brasil.

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